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EU VEJO GENTE MORTA

Eu vejo gente morta. Vejo nas escolas, nas ruas, nas praças, nos comércios. Vejo gente morta na televisão. Também ouço gente morta, seja quando ligo o rádio, ou mesmo numa conversa de esquina. E leio gente morta quando abro o jornal, uma revista ou, até mesmo, distraído, no trânsito quando me deparo com algum outdoor.

Mortos reaisNão, não sou espírita. Também não sofro com alucinações. Interagir com gente morta é mais corriqueiro do que aparenta. O amigo que me lê tem contato com eles. E com frequência diária. Mas, não há qualquer necessidade de tomar aquela pistola ou espingarda engavetada, guardada para uma emergência como a que parece ser esta: um ataque de zumbis! Caro amigo, os mortos que aqui menciono são reais e, pasme, fazem parte do nosso cotidiano.

O fim da vida

A morte é, sem dúvida, um evento trágico, porém, inevitável. Podemos, de certa forma, até adiá-la. Podemos, até mesmo, com alguma astúcia (dom de poucos) ludibriá-la. Mas, um dia nos achará em algum beco, colocando-nos contra a parede dos anos que lhe passamos para trás e nos ceifará toda a esperteza. Enfim, não há como escapar! É o fim do respirar, do pulsar do coração. O fim da vida.

Outras maneiras de morrer

Mas, existem outras maneiras de morrer. Claro, estas não implicam diretamente em perda da vida. Eis que chegamos ao ponto inicial desta crônica: gente morta, mas que ainda vive. Aliás, neste caso, o verbo viver pode ter sentidos variados. O que é viver? Segundo o dicionário, existem cerca de quatorze definições. Entre elas encontram-se, entre outras, "morar", "gozar a vida", "comportamento", "ter relações sociais ou amigáveis". Ora, se cada uma delas representa o que é viver, logicamente podemos ter uma morte para cada uma delas também. Enquanto uns morrem intelectualmente, outros (conforme suas crenças religiosas) morrem espiritualmente. Alguns morrem socialmente, afogados na depressão. Outros, ainda, tropeçam na falta de oportunidades, vindo a morte tragar suas dignas vidas, deixando-os à mercê das ruas, praças, viadutos e marquises das grandes cidades.
Morrer para viver

Devemos levar em conta que, nem sempre morte é sinônimo de perda, de dano. Há situações que ela nos leva algo ruim, para que ressurja em nós uma virtude. Pode acontecer que o orgulho demasiado seja ceifado, brotando, em seu lugar, a humildade necessária para que não nos percamos em nosso superego. Pois, aí está a morte como benefício para a vida!

Morrer para melhor

Mudar as ideiasO fato é que, em todas as ocasiões, morremos de alguma maneira. Assim como hoje vivemos uma determinada situação, em nossos sonhos, durante o repouso noturno, talvez surja uma luz diferente e, ao despertar, morre o antigo cenário para dar vida a uma nova ideia, um novo caminho. (Aliás, morri várias vezes até concluir este artigo).

Reflita em quantas vezes morremos por dia. Contudo, isso não nos torna moribundos (embora alguns tenham perdido a capacidade de raciocinar - metaforicamente falando, é claro - transformando-se em "zumbis intelectuais") pois, a morte traz a oportunidade da ressurreição como o novo, como o diferente, como o melhor! Por isso, afirmo com convicção: vejo, escuto e leio gente morta...todos os dias!

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